O fogo

O vento passa balançando o cabelo de homens e mulheres. Na avenida, carros param de repente, um cessar de movimento que parece assustador sem o conhecimento do contexto. Pássaros que chilravam o mais alto que podiam subitamente sentem a tensão, e a decisão de ficar calado parece ser a mais razoável. Diante disso, um garoto de seus 7 anos sobe seu olhar ao horizonte e a razão de tanto silêncio por fim se revela. 
    Se vocês pensam que é algo mágico, me desculpe. Mas um incêndio parece mais real à cena. 
    Fumaça cinzenta invade o céu azul límpido. Os grandes prédios parecem pequenos dada a quantidade de massa escura invadindo a área urbana. Sentimentos de terror se espalham, mas um terror mudo, sem barulho de pânico, sem voltas no mesmo lugar. Algumas pessoas seguram suas mãos para rezar, outras choram e outras ainda começam a reclamar a ninguém específico. (Alguém se perguntou o que podia ser feito?)
    O lugar onde começara o incêndio todos sabiam. Como um dilema o trataram, e assim ficou. É claro que mantendo limpo e organizado, isso nunca aconteceria. A responsabilidade era do governo, do dono, da comunidade em volta. (Jamais sua). 
    O fogo não se alastrou, mas a fumaça tomou conta da cidade e dos seres vivos que lá moravam. Enquanto a noite caia, e os postes acendiam, o contorno ficava todavia mais sombrio. Como uma máscara que assombra, as pessoas já não se reconheciam. 
    A fumaça...
    Não havia como ter parado isso antes? Pequenos casos que se resolvidos, não teriam se acumulado? 
    O fogo...
    Não era um dilema, se tinha uma solução. Para que querem culpados? Para que resgatam mitos? Procurem o incêndio, para assim apagar o fogo! Com que água?
    Sentimos muito, cara cidade.
    Haviam muitos potenciais ali, acredito que sim. Sabe o que me impressiona? Nenhum se levantou para salvar a todos. Ah, espera.
    Aquele menino... poderia ser? Oh, espera!
    Ele viu o fogo. Não havia prestado atenção a ele, espera um pouco! Já era noite, e ele levantou-se da calçada de onde o abandonaram. Falando baixinho, como se em oração, caminhou no sentido do fogo. Do fogo! Ele viu o fogo. O fogo que ele não criou, que lhe foi dado para resolver, que não o pertencia como problema. O fogo que criou a fumaça que inundou a cidade de caos.
    O menino viu o fogo.
    O sentido do fogo era centro. Pegando atalhos e vielas, o garoto, mesmo com medo, encontrou o início. Respirando fundo, ele puxou o quanto de ar puro ainda existisse, e com força, soprou na direção do fogo. 
    Ah! Ele salvou a todos!
    Mas precisou de todo o ar dos pulmões. Com o tempo, a pouca fumaça que restava na cidade foi respirada e devolvida. Ela continuou o seu normal, e as pessoas perceberam que precisavam conter qualquer fogo que aparecesse.
     Afinal, eles não querem que a fumaça apareça de novo. 
    Nem eu, para ser sincero. Já vivi muitos fins de lindos começos. 
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FIM
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Ass: Valentina Gagliardo Ferreira 
      

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