É sobre tambores
Houve um tempo em que as pessoas tinham câmeras fotográficas. Era caro mantê-las e cada foto tinha que ser pensada para os filmes não terminarem rapidamente. Hoje, todas as pessoas têm acesso a uma câmera pelo celular e podem tirar quantas fotos quiserem.
Mas isso não é sobre câmeras. É sobre tambores.
Fui a uma palestra, e aqui peço permissão para contar a história de Rodrigo de Barros. Quando ele era apenas uma criança, vivendo em uma cidade do interior do Paraná, a escola organizou um passeio ao zoológico. Feliz, o pequeno Rodrigo teve a maravilhosa ideia de registrar aquele momento especial usando a câmera da sua mãe emprestada. Porém, a câmera precisava de rolos de filmes, que continham uma quantidade certa e limitada para fotografar. Foi aí que ele descobriu que a vida não era tão fácil assim. Durante 2 meses, ele arrecadou uma grana para os filmes, fazendo poda, cortando grama, lavando carro, e no fim, conseguiu... 8 reais! Muito animado, Rodrigo foi até a loja onde se vendiam os rolos e o vendedor mostrou as opções "12, 24, 36 poses...". Ele escolheu o que vinha mais, entretanto, seu cofrinho alcançava somente para 12. Pois bem, satisfeito, o garoto voltou para casa e aguardou o dia do passeio.
No dia do Zoo, ele estava muito ansioso e pensava que ia poder registrar muito animais, momentos... até tirar a primeira foto, com a turma. Então ele percebeu: só havia mais 11 poses. Ele devia ter mais cuidado ao fotografar novamente, pois a quantidade era pouca. Guardou a câmera e entrou no ônibus junto com os colegas. No caminho, brincaram, riram, se divertiram (tiraram uma foto só para lembrança) e quando finalmente chegaram no zoológico, o menino ficou admirado. Eram muitos animais! Mais de 100 bichos! Ah não, mas ele só tinha 10 fotos para gastar! Teve que escolher, pensar e enquanto passeava, fotografar o que julgava ser uma boa foto. No final do dia, não havia sobrado nenhuma pose, mas também fora muito divertido.
Alguns dias depois daquele emocionante passeio escolar, Rodrigo foi na loja novamente. Naquela época, se revelavam os filmes, e a criança descobriu que para ver as fotos que ele havia tirado, tinha que pagar. Quanto? 12 reais. "O QUÊ?!" Era mais do que ele havia arrecadado antes! Pois bem. Então, o que ele fez? Trabalhou. 6 meses depois, o dinheiro estava entregue ao vendedor e as fotos embaladas em um saco de papel. Mesmo ansioso, ele esperou até o dia seguinte de aula, para poder ver as fotos com a turma. Na sala, todos se reuniram em volta dele, e foram "reveladas" as fotos. "Olha, a gente ali!", "Você lembra que fulano estava com a gente naquele dia?", "Eu tinha contado uma piada e por isso você saiu rindo na foto!" e muitas outros comentários das lembranças que surgiram naquela sala, de um passeio feito 6 meses antes e do qual foram registradas apenas 12 fotos.
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Bom, e o que você acha que ele quis contar com essa história?
Ele estava falando anteriormente sobre criatividade. Ele usou o exemplo dessa história que aconteceu com ele para falar sobre "o que dá ritmo a nossa vida?". As pessoas criativas têm, em sua rotina, pequenos hobbies e hábitos, que as inspiram a inovar, ou seja, pensar em novas ideias. Com o avanço da tecnologia, as pessoas parecem ter menos tempo de investir em simplesmente "criar". A IA cria agora. O celular tira 100 fotos que você pode escolher depois qual foi a melhor e postar, em um story que some em 24h. Rapidamente, os momentos que você tem somem tão rápido quanto acontecem. Você não lembra que estava triste o dia da festa, pois na foto você sorriu. Verdadeiro, sincero, honesto. As memórias que baixamos na "nuvem" ficam lá, para nunca mais serem olhadas. Enchemos o backup para não esquecer, mas esquecemos de olhar. Para quê, então?
Rodrigo voltou mais no tempo. Antes do story, das câmeras fotográficas, mesmo antes das línguas, o ser humano se comunicava de outras formas. Gestos, expressões faciais, sons. Ritmos, para ser mais precisa. O batuque de um tambor podia significar algo para uma tribo, e significar outras coisas para outros diferentes. Mas depois de um tempo de batuques, os dois se entenderiam... (Neste momento, o público, que havia recebido uma baqueta e uma tábua, pegou seus tambores e Rodrigo ditou um ritmo para metade da plateia, e outro diferente para a outra metade. Quem esteve lá, sentiu uma orquestra de baterias, vibrante, organizada e surreal. Uma emoção que não tem nome em nenhuma língua. Aquele sentimento que nos torna apenas seres humanos, com todas as falhas e acertos).
Então, depois de uma onda de ritmos de batucadas, o palestrante perguntou se alguém na plateia tinha um tambor. O próprio tambor. Alguns levantaram as mãos, e ele então escureceu a sala.
Tum tum.
Tum tum.
Tum tum.
Acontece que todos temos um tambor batendo no peito. Se não dermos um ritmo à ele, um dia ele para.
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Obrigada por ler até aqui.
Sentiu-se tocado? Deixe um comentário. Sempre leio todos <3
Ass: Valentina Gagliardo Ferreira
👏🏻👏🏻❤️❤️
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirQue lindoo! Amei ♥
ResponderExcluirHermoso valen! Que lindo leerte y entenderte
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