A eternidade do presente

 

  Mamãe?

    O garoto de quinze anos chamou, entrando na cozinha. Ele tinha olhos grandes e amáveis, mas no momento pareciam curiosos, o que fez sua mãe prestar atenção ao que ele estava trazendo.

    –O que você encontrou? – Ela disse, se aproximando por trás da cadeira onde ele havia sentado.

    –Estava no sótão e achei esse álbum de fotos. As minhas fotos de criança estão aqui embaixo, então fui olhar mas não reconheço nem um terço dos rostos daqui. Ele deixou o álbum na mesa, aberto. –Olha, aqui se parece comigo, mas não sei quem são essas pessoas.

    A mãe deu um sorriso e apontou para o garoto da foto.

    –Se parece com você pois é seu pai, quando mais novo. Do lado são os primos, Antônio, Ric, Pricila e Nessa. Você não chegou a conhecê-los, mas eu era amiga das duas primas e elas me apresentaram seu pai.

    O rosto do garoto se iluminou.

    –Ah! Então essas são as primas! –Ele ficou observando com admiração as duas meninas da foto. Virou a página. –E esse homem ao seu lado, mãe?

    –É um amigo mais velho que criei num curso quando era mais jovem. Ele devia ter uns cinquenta anos e eu, dezessete .

    –Oi? Como assim? Por que fez amizade com um velho?

    –Ninguém nunca me disse que não podia ser amiga de pessoas mais velhas que eu. Aliás, é sempre bom ter amizade com pessoas que viveram mais que você, pois elas aprenderam muito e podem te passar a sabedoria da experiência. –O garoto ouviu com atenção e guardou aquela informação na memória.

    –E essa garota do lado do vovô?

    Passaram o resto da tarde conversando e descobrindo mais acerca da própria história. O garoto se reconectou com a família, e percebeu que gostou de aprender.

    –Sabe, –a mãe começou, –são poucos os que tem esse desejo de querer conhecer seus antepassados. Quando era mais nova sempre quis que me contassem suas histórias, principalmente meus avós e parentes mais distantes, porque assim poderia levá-las adiante. Contar para você, por exemplo.

    O menino a escutava atentamente, admirado.

    –Mas tive muito medo, muitas vezes. Deixei de perguntar por talvez não quererem compartilhar suas vidas, ou de terem se esquecido.

    –Como o bisa?

    Ela lhe deu um sorriso triste e chegou mais perto do filho.

    –Sim, como ele. Por isso escrevo, por isso te incentivo a escrever. Ao criarmos laços e memórias, esperamos que eles estejam sempre aqui –Ela tocou no coração dele. – e realmente estão. Mas conforme o tempo vai passando, nossos entes queridos nos deixam, os amigos se vão, e tudo o que sobra são lembranças... Até que elas desaparecem também.

    Ele pegou uma foto do bisavô, relembrando a doença que o fez esquecer do bisneto.

    –Não sou pra sempre, filho. Algum dia você lerá o que eu escrevi nos diários e descobrirá que eu sempre fui eu, que minha existência permanece viva após minha morte. Escrevemos para tornar aqueles que se foram, eternos.

    Eles se abraçaram com a força de quem ama e que teme perder. Por um minuto, eles duraram a eternidade.


Ass: Valentina Gagliardo Ferreira💕



Comentários

  1. Não sei oq comentar, mas tá mto bom 👏🏻👏🏻👏🏻

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