Uma vez, eu tive uma flor

 Uma vez eu tive uma flor.

    Bem, quase isso. Toda semana, minha tia me levava para passear em um parque que ficava perto de casa. Num canto escondido entre os arbustos, descobri um broto cercado com uma grade pequena, menos de 5 centímetros de altura ao redor da espécime desconhecida. Um súbito desejo no meu peito de 7 anos me fez querer cuidá-la. 

    Assim, toda semana, eu a regava e a observava crescer. Era uma flor, delicada, com pétalas rosadas e macias. Não ousava tocá-la, apenas regava, esperando sentir o perfume dela nos fins de semana. Virou uma rotina, até que minha tia se mudou e uma criança como eu não podia ir sozinha, então duas semanas se passaram até eu retornar ao parque.

    Vinha chorando todos os dias por isso, e minha respiração voltou ao normal ao vê-la, ainda maior e ultrapassando a grade que parecia impedi-la de encontrar a liberdade das outras plantas. Ao perceber isso, a retirei com cuidado, deixando suas folhas livres para crescer.

    Uma semana se passou e fui vê-la de novo. Ah, não. Não, não, não, não! Ela havia sido atacada. Algum animal havia rasgado suas pétalas e algumas folhas tinham caído já marrons na grama, contrastando com o verde vívido da injusta mãe natureza.

    A grade que bloqueava sua liberdade também a protegia. Eu a havia libertado sem perceber que a pus em perigo. Ela não estava pronta. Com lágrimas e o peso da culpa nos meus ombros, coloquei a grade de volta, juntando terra e regando para que pudesse recomeçar.

    Não demorou muito para que eu conseguisse voltar cheia de esperanças e desculpas. Com palavras e histórias, fiquei do lado da flor enquanto ela se recuperava e notei uma nova mudança: espinhos. 

    Espinhos que machucavam, que alertavam uma beleza ameaçadora.

    Não podia mais tocar seu caule sem me afastar um segundo depois com dor. Mas suas pétalas seguiam em busca do sol, da vida, e sua cor foi ressurgindo aos poucos, até mais vívida. Uns dias depois, ela estava cem por cento. Só que o ataque à vida, depois da retirada de sua zona segura, a modificou, a deixou mais forte e independente, até que a água já não era mais necessária pois a terra fornecia o suficiente. 

    Eu fiquei triste. Ela não precisava mais de mim. Eu a cuidei, a soltei e a machuquei sem querer. Ela renasceu, e me pergunto se esse risco não a deixou mais forte. Se ela tivesse sido cuidada até o final, será que sua fragilidade teria encurtado sua vida? 

    É uma pergunta que eu faço até hoje. O risco é necessário para a mudança, ou o cuidado fornece tudo o que precisamos até o final?

    Ela teria criado espinhos sem a ameaça?

    Ela teria ficado mais forte? 

    ...

    Uma vez, eu libertei uma flor.

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Ass: Valentina Gagliardo Ferreira💕













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