Sem título (pois o texto fala por si)

    Ela se vê encarando mais uma vez a tela branca do computador. Vários dias se passaram sem conseguir transmitir em palavras o que ela pensava. Tantas horas vagas, o que ela faria? "Vou pintar, escrever o meu livro, ler os 10 livros que me esperam na estante! Vou estudar mais sobre o meu curso, vou explorar o meu quarto e a minha criatividade! Vou sair com minhas amigas!". 
    Na verdade, ela ficaria horas enrolando no celular. Não o tempo todo, mas não o tempo que deveria. 
    Se existisse uma receita para o tédio, seria uma dose alta de dopamina rápida e então o vazio. O vazio que sentimos depois de não achar mais graça nos vídeos e na vida das outras pessoas. Quando foi que um minuto passou a ter 3600 segundos? Quando foi que ela olhou para o espelho e não viu aquela garota com cabelo amarrado em um rabo de cavalo baixo e tiara preta? Aquela lancheira para ir para escola, se transformando em potes plásticos, e então o dinheiro para comprar no mercado? Quando foi que ela cresceu que ela sequer viu?
    A partir disso, ela entendeu que não queria crescer tão rápido. 
    Voltou com antigos costumes. O batido de banana pela manhã, a curiosidade por livros antigos, a vontade de mestrar rpg's inventados, ouvir música de playlists antigas e cantá-las como se as ouvisse todos os dias. A memória de jogar jogos de tabuleiro, o prazer de ver filmes da Disney da velha guarda, quando as imagens eram estáticas e desenhadas, camada por camada. Uma nostalgia que chegava ao fim, com as letras e a voz do narrador falando "The End", e na frente da Tv, uma garota já adulta com olhos refletindo os sonhos de criança
    Aquele momento em que ela se senta na cama, coloca o óculos e percebe o quanto dela ainda pode sobressair pela tela é fascinante. Quase metódico, senão fosse prazeroso e aliviante. Inefável. Uma vez ela escreveu sobre o inefável. Era um tempo em que ela se sentia confusa mas sabia que algo grande estava acontecendo dentro dela. Indescritivelmente belo... Inefável.
    Ela sente que não sabe acabar o que escreveu. Vai procurar uma foto bonita para pôr no fim do texto, para que se destaque de algum jeito. O processo de escrita chegou ao seu fim, quando ela lembrou dos seus antigos textos e foi lê-los novamente. Por que afinal, foi por isso que ela começou, certo? Ela precisa ver as coisas no papel, firmes, fortes, seguras. Sentir que é palpável e transparente, mesmo quando o resto não o é. 
    Sentir que não é um nome, um ofício, um poema, uma música. Sentir que é ela mesma. 
    Acho que por isso ela voltou no tempo. Para recuperar uma menina estudiosa, amigável e... (aqui eu os deixo, pois começou a ficar pessoal). De qualquer forma, este devaneio já terminou.

Ass: sua autora de telas brancas e reflexivas.



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Obrigada por ler até o final.
    

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